segunda-feira, 7 de junho de 2010

Pirataria traz benefícios econômicos a cidade na Somália

Por Kassim Mohamed

O dia está amanhecendo e Zynab Abdi, de 58 anos, está fazendo suas orações matutinas sob um velho tapete. A mulher de olhar frágil tem uma aparência de 70 anos. Com uma voz aguda, Zeynad diz que ela cuida de quatro netos. As crianças são órfãs. O filho dela morreu em 2008 em Mogadíscio, durante uma troca de tiros entre as tropas do governo de transição da Somália e os Tribunais Islâmicos, um grupo de milícias muçulmanas.

Zeynab mora em Eyl, uma pequena cidade numa região semi-autônoma da Somália. A única renda de Zeynab são as esmolas que recebe dos piratas. Nesse dia, Zeynab caminha na sua vila em busca de notícias, para saber se os piratas seqüestraram algum navio.
"Você sabe, quando eles conseguem dinheiro quer dizer que eu também posso alimentar meus netos. Dois homens, Mohamed e Farole são os que mais me ajudam.”

Pilar de sustentação
Os dois homens que estão entre os estimados 1500 piratas que atravessam o golfo de Áden e o oceano Índico são como o pilar de sustentação para Zeynab, ainda que eles não sejam parentes dela.

“Em outubro de 2008, quando eles seqüestraram um barco alemão e receberam muito dinheiro, um dos piratas prometeu construir uma casa para mim, onde eu poderia morar. Mas isso não aconteceu porque ele foi morto quando eles disputavam entre eles como iriam dividir o valor do resgate”, explica Zeynab.

Os resgates massivos trouxeram o desenvolvimento rápido para esta antiga vila de pescadores que agora se orgulha de ter a pirataria como negócio à então adormecida vila de pescadores.

Catering para os reféns
Com as mãos decoradas com henna, Anab Farah exibe um sorriso cheio de alegria. A jovem divorciada, de 26 anos, comanda um restaurante em Eyl que tem a responsabilidade de fornecer a alimentação para os reféns que estão nas mãos dos piratas em várias localidades.

“Os piratas são importantes para o meu trabalho. Eu recebo o equivalente a 400 dólares por dia, ainda que não seja todos os dias. Isso é um bom dinheiro aqui em Eyl. Batendo palmas, em admiração ao que ela está dizendo, Anab começa a cantar uma música em somali, composta por ela: “Ya kale, ya kale oo Somalidu dandeeda kafinkara oo aan aheyn burcaat badhet” (se não fossem os piratas, quem ira pensar nos apuros que passam os somalis?).

“Vemos a pirataria como uma maneira de desenvolvimento e não como um crime. Se os piratas nos dão uma chance para viver, porque não? Colhemos os frutos do trabalho deles e os apreciamos também”, diz Anab.

Economia local
Abdullahi Abdi é um dos piratas que declara publicamente que a pirataria trouxe desenvolvimento à população de Eyl e suas redondezas. “Quando nós seqüestramos navios e investimos no básico como alimentação, a compra de cabras para carne e o que nós precisamos para os moradores significa que nós injetamos dinheiro na economia. De que outra forma esse povo poderia se alimentar? Todo o peixe que havia no mar já acabou”, diz Abdullahi enquanto toma um gole de seu café.

A pirataria parece ter encontrado sua rota e enquanto os piratas são condenados pela maioria no mundo, são eles quem põem a comida na mesa de outros; são anjos à sua maneira.

Fonte: www.rnw.nl/portugues/article/ (04/06/2010)

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